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Banquete de Natal

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Lá fora a bola bate no chão anunciando o coração do menino Uma revoada de besouros me fez pensar - Beija-flor ganhou ninhada. Tudo é tranquilo não fossem os carros e o coração do menino e o galo E o galo que cisca para trás contrariando o Natal. Já cantou logo cedo, agora cisca. Jogando fora comida que não serve. Outros virão saborear o banquete. A noite chega, a familia chega... estão com fome. Não é fome de besouro, nem de beija-flor, nem de galo. O coração do menino já não bate, caiu talvez, no quintal do vizinho...

Degraus

Certezas tem um quê de malignidade Anjos sombrios mostrando o caminho              pego, largo, pego                tênue         linha                        certo                       errado                      verdade                      mentira                       tudo é aqui ...

Cheiro de sol

Minha infância tem cheiro de sol Correr era igual a rasgar o ventre do vento Rodopiar era a primeira intenção de se embriagar Minha infância tem cheiro de sol As roupas tinham que ter qualquer coisa de nuvem Se não fosse dia de escola os pés só calçavam areia Minha infância tem cheiro de sol O espectro da solidão nem assombrava Era tudo orquestra: de latas, de grilos, de aves... Minha infância tem cheiro de sol Mãozinhas miúdas que hoje me acalentam É lá onde hoje repouso minha sombra

Meus olhos

Já nem sei se sou triste Esse é o único caminho que conheço Meu sorriso ficou trancado No ventre de onde nasci Não sou a flor bela mas, a angústia Esta sela meu destino Invejo aqueles que sorriem Aqueles que nem olham as estrelas Aqueles que nem pedem conselhos à lua Invejo a mulher que alimenta seu filho no peito Sem se perguntar o que é a vida... Meus olhos são grandes, imensos E sempre querem mais Querem se misturar ao infinito!

Meu quintal

Não hás de descobrir Os lugares por onde andei Ainda que lá possas estar Não hás de saber Os lugares que encontrei Foram meus olhos que andaram Dando cambalhotas Adentrando na paisagem Vasto mundo além dos limites Cabe e se estende infinitamente No meu olhar... Há tempos que indefini O tamanho do meu quintal.

Sertão

No Sertão quando não chove O calor é macio como o hálito do ser amado Percorrendo nossa nuca No Sertão quando não chove O vento faz redemoinhos pra gente brincar Pele quase nua, pés tão livres... No Sertão quando chove as árvores vestem suas melhores roupas e as folhas gargalham dançando embriagadas de água Não é uma chuva que nos recolhe em casa É chuva compartilhada nas ruas Que logo viram lama abençoada Não existe tristeza no Sertão Existe calor que abraça Existe espera por chuva.

As Horas

Ele semblante agora taciturno Parece conter severas lembranças O olhar revelando ainda a criança Que existiu naquele que hoje é noturno Da varanda sua retina abraçada às àrvores Desejando raizes em sua alma Um bosque atravessado não acalma A paisagem que agora perdeu as cores Sua aquarela só contendo cinzas Foi ofertada por tantos dissabores Pois aquela que um dia ele cobriu de flores Está deitada sob um manto de sempre-vivas O balanço da cadeira, sua signa Herança de algum antepassado Olhos fixos no ranger desalmado Daquela que um dia embalava cantigas Áspero ruido marcando o compasso Horas que já não serão mais infindas Anestesia e pune a vida que existe ainda É a precisa Senhora ofertando-lhe o braço!

Sobre verdades

Sonhei que vagava por entre verdades Retalhos costurados em páginas de livros Lá eu começava a me perder Nessa longa estrada de escritos Passos largos tentei e também devagarinho... Tentei segurar as verdades no meu intimo Mas esse, delas zombava Verdades absolutas, verdades conhecidas reconhecidas, coisa e tal... Tentei calar meu instinto _Quieto! não vês que assim me farás ridículo? Mas logo minha razão a este se juntava Em um grande coro que, das verdades zombava Tentei me agarrar à humildade e aos seus pés eu implorava _Não me deixes subir tão alto! deixe-me aqui onde as verdades possam chover... Logo meus sentidos pulavam alegremente sobre as poças lamacentas que as verdades formaram Eu não sabia mais a quem recorrer Buda, Cristo, Khrisna, Zoroastro ou ao diabo Todos os mitos tentei _Dobrem meus joelhos, façam de mim um escravo! implorei. Mas, quanto mais nelas eu tentava me segurar Mais as verdades escorregavam Foi só um sonho, ou acordei?

Bob Dylan, café e cigarro...

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                                                    "One more cup of coffee for the road,                                                        One more cup of coffee 'fore I go                                                  ...

Tempo

Um ar irrespirável de saudades! entre a lâmpada e o móvel, aranhas desfilavam tecendo o tempo... gavetas! há tanto tempo fechadas, gemeram ao simples toque de meus dedos. Delas lembranças finalmente respiraram novamente vivas em minha mente. Estantes, livros, desenhos, quadros... desbotados! E eu, como estaria? De repente me procurei num espelho, e ainda rente à parede encontrei um grande e ovalado olho esfumaçado de poeira! fui aos poucos descortinando com minha mão... o que eu tinha me tornado!? fiquei ali me olhando com tanta insistência que então me desconheci!

1+1

Procurei entre minhas infinitas certezas um alento! _Depois pontilhei entre uma e outra o desacordo...